Aos 70 anos, médico, esportista e cadeirante

05.12.2017

“Quando perdi os movimentos, primeiro me disseram que eu não iria sentar. Depois, que minha vida seria curta”

“Quando perdi os movimentos, primeiro me disseram que eu não iria sentar. Depois, que minha vida seria curta”. Com 70 anos completados em abril, José Carlos Morais é um exemplo de resistência e a autobiografia que acabou de lançar é uma prova disso. “Roda vida, memórias de um cadeirante” expõe com sinceridade desconcertante toda a trajetória de um jovem médico que, aos 25 anos, ficou paraplégico depois de um tiro durante um assalto em Ipanema, no Rio de Janeiro. Pergunto a ele como, olhando em retrospectiva, explica sua resiliência: “tem gente que aceita, se conforma e acha natural perder os movimentos e viver uma vida pela metade. Para mim, o importante foi a porrada, ter 25 anos e não sentir o corpo. Passei seis meses chorando e dali tirei a força para sair do buraco onde me encontrava”.

São 45 anos numa cadeira de rodas. Foram 20 dias de CTI, dez meses de hospitalização. O tiro foi disparado em 3 de dezembro de 1972. Ironicamente, 3 de dezembro também é o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.

Ao longo dessa jornada, trocou a residência em clínica geral pela anatomia patológica. Fez mestrado e doutorado, tornou-se professor titular do Departamento de Patologia da UFRJ e, durante 40 anos de magistério, 7 mil alunos receberam suas lições – de vida, inclusive. “Passei os últimos quatro anos fazendo uma espécie de dessensibilização com a medicina, diminuindo a carga horária, me programando para não sentir um vazio quando a atividade cessasse de vez”, ele conta, enquanto espera o fim do processo de aposentadoria na universidade.

No esporte, encontrou força e motivação: primeiro com o basquete, depois com o tênis. Disputou três Paralimpíadas, nove Mundiais e foi o primeiro do ranking brasileiro de tênis seis vezes consecutivas. Só parou de competir em 2009. Coordena o projeto Cadeiras na Quadra, que atende a 12 crianças e jovens que participam de seis torneios por ano, mas gostaria de chegar a 30 beneficiados e criar mais unidades – o centro funciona perto de sua casa, em Itacoatiara, na região metropolitana de Niterói.

“Perdi muitos amigos cadeirantes que não se trataram, que não tinham acesso à informação”, lembra com pesar, para enfatizar um de seus mantras: reabilitação não é voltar a andar, e sim reconquistar a independência.

Casado e pai de dois filhos, afirma que a acessibilidade e o preconceito melhoraram, mas chama atenção para a infantilização com que é tratado quem tem alguma deficiência. “Já saí para jantar com minha mulher e o garçom perguntava a ela o que eu iria comer”, exemplifica. Quer que o livro se torne ponto de partida para um novo campo de atuação: fazer palestras sobre sua trajetória. José Carlos confessa que não gosta muito da palavra superação: “superar passa a ideia de resolver um problema, mas eu não tenho um problema, tenho uma situação e meu propósito sempre foi me adaptar a ela”. Aos 70, ele não pretende parar.

Fonte: Bem estar

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  • reabilitação

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