Resiliência. Mais de 200 tumores não derrubaram Verônica Hipólito

16.01.2018

Entre cirurgias e pódios, a atleta brasileira de 20 anos faz parte da elite mundial do atletismo paralímpico.

“O esporte sempre foi parte da minha vida. Pensa em uma pessoa que já fez de tudo? Sou eu. Tênis de mesa, tênis de campo, polo aquático, natação, karatê, capoeira, futebol… Por aí vai. Mas a primeira modalidade pela qual me apaixonei foi o judô, quando tinha 10 anos. As pessoas achavam que, por causa do meu tamanho, não seria uma boa atleta. Mas, naquela época, já estava aprendendo algo sobre mim que só encontraria a palavra para definir esse sentimento mais tarde: resiliência. É a capacidade de levantar mesmo depois de tomar várias pancadas, é encarar as dificuldades e tirar algo positivo delas para tornar-se cada vez melhor.

Em novembro de 2009, quando tinha 13 anos, fui fazer exames de rotina. Uma hematologista notou algumas alterações e, em uma semana, eu já estava no neurocirurgião – precisava retirar um tumor no cérebro o quanto antes, pois, se ele estourasse ou sangrasse, poderia perder a visão ou morrer. Foi tudo muito rápido. Me mantive positiva durante o processo, mas queria voltar logo para o judô. Aí veio o choque: o médico disse que não poderia praticar nenhum esporte de contato por estar proibida de sofrer impacto do quadril para cima. Basicamente, me restava o tênis de mesa, de campo, natação e atletismo – só que não me interessava muito por nenhum.

 

O COMEÇO NAS PISTAS

Estava triste por não poder me movimentar. Acho que ser atleta é um estado intrínseco, faz parte de você. Apesar de não ser profissional, já tinha o esporte como grande parte da minha vida quando descobri o tumor.

Foi aí que aconteceu meu primeiro contato com o atletismo. Meu pai, que é corredor amador, me convidou para participar de um festival no clube em que praticava o esporte. Perguntei que horas ia acontecer e ele respondeu ‘8h da manhã.’ Eu disse sem pensar ‘Claro que não’ (risos). Apesar de emburrada, acabei indo. Quando entrei na pista, só queria ganhar. Quem é competitivo é sempre, né? Mas perdi. Os 60 metros foram paradoxais: passaram rápido demais e muito devagar ao mesmo tempo. A partir daquele dia, meu único objetivo era vencer as meninas do clube.

Tive dificuldade para entrar no time. Não foi fácil encontrar alguém que quisesse treinar uma criança de 13 anos que fez uma cirurgia na cabeça; os técnicos tinham medo. Precisei fazer uma série de exames, mas consegui a vaga em 2010.

SEGUNDO BAQUE

Estava animada quando levei mais um susto. Justo quando ia começar no meu primeiro ano de alto rendimento, tive um acidente vascular cerebral (AVC) que paralisou todo o lado direito do meu corpo e também minha minha voz. Meu neurocirurgião me disse que eu não conseguiria andar, usar o lado comprometido do corpo ou falar direito. Deveria começar a fonoaudiologia e a fisioterapia o quanto antes.

Achei que a recuperação seria tranquila, mas acabei me frustrando. As pessoas entravam no quarto da menina que teve um tumor e um AVC e diziam para meus pais ‘Que pena, tinha uma vida tão boa…’, ‘Coitada, vai ficar dependente dos pais…’ na minha frente.

As pessoas pensam que foi fácil, que eu me recuperei rápido. Para chegar no ponto de olharem e dizerem ‘Ela não tem nada’. Porém, passei por muita coisa. Na fisioterapia, não conseguia jogar uma bolinha de massagem na parede. Tinha muitas limitações de mobilidade, mas não me frustrei. Sempre pensava ‘Amanhã vai ser melhor’.

HORA DA REABILITAÇÃO

Voltei ao atletismo para me reabilitar. Caminhei, caminhei mais rápido, trotei até que finalmente corri. Apesar do progresso, ainda havia movimentos que eu não conseguia executar de jeito algum; não mexia os braços do jeito certo, cansava rapidamente e lesionava com muito mais frequência que outras pessoas. Às vezes, caía e acabava assustando os treinadores! Não compreendia por que meu corpo não reagia bem aos estímulos.

Um dia, meu treinador me perguntou por que eu não realizava os movimentos corretamente quando corria. Pensei até em pedir desculpas, não sabia que aí começava uma nova descoberta. Ele me explicou que achava que eu estava treinando no lugar errado. Foi ali, aos 16 anos, que entendi o que eu era: uma atleta paralímpica.

PARALÍMPICA

Fiz uma série de exames que comprovaram que certos músculos não reagiam como deveriam – o AVC me deixou com sequelas. Pode parecer besteira, mas foi um alívio compreender o motivo do meu corpo ser como é.

Quando entrei no mundo paralímpico, pude me conhecer melhor. Na minha competição de estreia, ganhei primeiro lugar nos 100m, 200m e salto em distância. Na segunda, repeti o feito e ainda bati o recorde das Américas. Na terceira, fiz tudo de novo e consegui índice para o Mundial. A partir daí, já me olhavam como uma promessa.

Lembro dos comentários em cada campeonato, as pessoas diziam “Nossa! Já está ótimo”, como se eu pudesse sempre parar por ali e me contentar. Minha quarta competição foi o Mundial de Atletismo, em Lyon, na França, em 2013, e cheguei à final. Até passou pela minha cabeça queimar a largada e não competir, só para não perder. Mas é aí que entra um personagem importante da minha história, o Yohansson Ferreira, atleta paralímpico brasileiro que hoje é um dos meus melhores amigos.

A prova dele seria logo após a minha e, apesar de nunca termos conversado antes, ele olhou pra mim e disse: ‘Por que você está com medo? O que você vai fazer aqui já faz todos os dias, muitas mais vezes’. Naquela hora, ele abriu meus olhos, fui para a prova de uma forma diferente.

Os próximos momentos foram um mix de emoções: ouvi a torcida, os colegas da seleção, registrei todos os incentivos e pensei nos meus pais. Dei meu melhor e acabei os 200m como campeã e nova recordista mundial, com 17 anos recém-completados. Na mesma competição, garanti também a prata nos 100m.

Quando voltei ao Brasil, recebi convites pelos quais não esperava. Empresas como Nike, Coca-Cola e Petrobrás queriam ser minhas patrocinadoras. Também recebi convites para palestrar em diferentes lugares. De repente, a menina que teve um AVC podia conquistar o mundo!

NOVOS TUMORES

No ano seguinte, o tumor na minha cabeça voltou, mas poderia ser controlado com remédios. Em 2014, ganhei absolutamente tudo que competi, tive resultados incríveis. Um ano depois, meu desempenho caiu e descobri que estava com anemia profunda, o que levou os médicos a investigar a causa – descobriram mais de 200 tumores no meu intestino grosso, que surgiram por uma síndrome chamada polipose adenomatosa familiar, geralmente hereditária, mas, no meu caso, adquirida por mutação.

Marcamos a cirurgia que retiraria mais de 90% do meu intestino grosso para logo depois do Parapan de Toronto, em 2015. Saí de lá com três ouros e uma prata, a maior medalhista de todos os tempos, primeira mulher na lista de atletas com pelo menos três medalhas na competição.

Após a operação, senti muita dor e tive que mudar alguns hábitos alimentares. Demorei para voltar a andar e não fui para o Mundial de Atletismo no Catar, no mesmo ano. Vi os recordes dos 100, 200 e 400 metros caírem na minha classe e tive um breakdown: já estava cansada de ficar doente, quebrar ciclos, ficar longe das pistas. Mas meus pais e meu namorado faziam questão de me lembrar que era só uma fase.

Voltei a treinar ainda bem debilitada, beirando os 39 kg (tenho 1,60 m) e com a região do core muito fraca por causa da retirada parcial do intestino. Logo depois, rompi um músculo posterior da perna esquerda, que é a minha melhor (a direita tem 70% menos força). Durante mais um período de reabilitação, recebi ajuda e um imenso carinho dos fisioterapeutas da seleção brasileira. Eles até saiam comigo para correr, para que eu não ficasse desmotivada. Depois de cinco meses, participei de uma competição e garanti a vaga para a Paralimpíada em casa.

RIO 2016 e Mundial de Londres

Foram três meses de treino no CT paralímpico com muitas sessões de fisio para chegar aos Jogos do Rio. Lá, consegui a prata nos 100m e bronze nos 400m. Saí corajosa e pensando ‘Puxa, agora sim estou motivada. Vi do que sou capaz e não vou quebrar mais nenhum ciclo’.

Quando voltei para a casa, as surpresas não foram boas. Meu tumor na cabeça tinha crescido e os hormônios estavam em níveis anormais. Cheguei a ter episódios de visão reduzida. Marcamos a cirurgia para janeiro e quando a fiz, fiquei um bom tempo no hospital. Mais uma vez, uma sequência de remédios, choro de dor, vômitos e incapacidade de levantar da cama estavam presentes no meu dia a dia. Só consegui voltar para a fisioterapia quatro meses depois – dali 40 dias seria minha última chance para conseguir o índice para o Mundial de Atletismo de Londres, que aconteceu neste ano.

Apesar de não ter conseguido a vaga, fiquei satisfeita por ter tentado e recebido o apoio de todos da seleção. Até das adversárias cheguei a ouvir ‘Nunca fiquei tão triste por ganhar uma prata. Preferia o bronze com você aqui!’. Vi meus amigos saindo felizes e com conquistas – e, com isso, ganhei minha própria medalha. Senti que evolui muito não só como atleta mas como pessoa.

DEDICAÇÃO SEMPRE

Neste ano, fui campeã brasileira nos 100 e 200m, além de ter levado o ouro nas mesmas distâncias no Mundial da IWAS, competição para deficientes físicos.

O atletismo é minha vida! Foi o que me recuperou quando eu poderia ter ficado deprimida por causa do judô, o que me reabilitou, me permitiu ter um maior autoconhecimento. Foi também o que me motivou após as últimas cirurgias, melhorou a condição financeira da minha família, me apresentou pessoas incríveis… É simplesmente a base de tudo.

Meu objetivo não é ser um exemplo de superação, acredito que isso, todo mundo tem, à sua medida, diariamente. Quero ser um exemplo para quem está tendo um dia ruim. Quero que eles me vejam e pensem ‘Olha, a Verônica está treinando de novo, ela se dedica porque quer ser a melhor do mundo. E por quanta coisa ela já passou?’. E não estou falando só das cirurgias; mas também meu esforço e entrega em cada treino.”

Entrevista dada a revista BOA FORMA
Fonte: BOA FORMA Abril

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